segunda-feira, 30 de novembro de 2015


O tempo parou.
Olho para o ponteiro imóvel
Já não se houve o tic-tac
Apenas o vento assobia.

Caminho descalço sobre a areia
Sinto a frescura e a humidade
As ondas rebentam numa espuma branca
Que rasteja até beijar-me os pés.

Contemplo o céu que se abre sobre mim
As estrelas estão ali, imóveis
Estico o dedo e toco-as
Ou serão elas que me tocam?

Vejo as ondas da sua luz
Que descem sobre mim
Tal como as ondas do mar
Tocam-nos na alma... profundamente.

Fiquem bem no lado escuro da lua.

domingo, 8 de novembro de 2009

Abandonada na areia



Encontrei-a abandonada na areia
Murcha já quase sem vida
Foi arrastada pelo mar, pelas ondas
Coberta de areia e sal, perdida

Alguém a ofereceu com amor
No entanto foi assim acabar desprezada
Um coração partido, dor e sofrimento
Algo que partilho nesta hora de tormento

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Morte e ressurreição

Já faz algum tempo que estava a prever um temporal para o meu lado. Sentia que o tempo não augurava nada de bom, a iminência da catástrofe sufocava-me, não a via, não fazia a mínima ideia se seria um terramoto, um furacão, inundações... não tinha a mais pequena ideia do que vinha aí, mas sentia que era algo terrível. Os temporais que me assolavam não eram mais do que um sinistro prenuncio de que algo verdadeiramente catastrófico estava para acontecer.

Hoje os meus receios e temores mais negros foram materializados, foi como se tivesse sido atingido por um tsunami gigante. Morri, morri mesmo, um cadáver conduzia aquela Strakar, a minha alma não habitava o meu corpo, tinha sido de lá arrancada pelo tsunami devastador, levada para a Antárctida onde ficou aprisionada sob um imenso glaciar...

De repente uma onda engole-me e lança-me a toda a velocidade num surf sem prancha directo à praia. Senti o fluir da água em torno de mim e a premente vontade de voltar a respirar; senti a areia a friccionar o corpo, travando a velocidade até à completa imobilização; a água recua deixando-me finalmente respirar. Foi algo contrariado que permiti que uma golfada de ar voltasse a invadir-me os pulmões. Expirei, levantei a cabeça e desatei a rir, ri profundamente e as minhas gargalhadas fizeram levantar as gaivotas que se preparavam para dormir ali por perto.

Olhei à minha volta, estava completamente nu deitado na areia enquanto as ondas vinham acariciar-me o corpo, levantei-me estava quase só, ao longe na névoa da maresia apenas se vislumbravam os vultos de algumas pessoas que passeavam pela praia. Voltei a correr para a água, repeti o longo surf, no fim do qual soltava um grito de prazer retornando para o mar que novo me trazia para terra.

Depois de dezenas de investidas voltei para a areia, exausto, distingui com dificuldade a minha roupa abandonada no areal, sentei-me ao lado dela e contemplei o pôr do sol, entrei em meditação e ali fiquei até o sol desaparecer por completo no horizonte, vejo o telemóvel a se assomar num bolso das calças e ponho a tocar aleatoriamente. Primeiro um jazz por Diana Krall - Almost Blue, seguiu-se The Blue de David Gilmour e quando as primeiras estrelas começaram a ficar visíveis Island também de David Gilmour.

Remeber that night
White steps in the moonlight
They walked here too
Through empty playground,this ghosts' town
Children again, on rusting swings getting higher
Sharing a dream, on an island, it felt right

We lay side by side
Between the Moon and the Tide
Mapping the stars for a while

Let the night surround you
We're half way to the stars
Ebb and flow
Let it go
Feel her warmth beside you

Remember that night
The warmth and the laughter
Candles burned
Through the church was deserted
At dawn we went down throgh empty streets to the harbour
Dreamers may leave, but they're here ever after

Levantei-me, sacudi o melhor que consegui a areia do corpo antes de me vestir e procurei o carro, coloquei a chave na ignição e o CD começou a tocar Diana Krall - Every time we say goodbye, I die a little. Recostei-me no banco e fiquei ali a contemplar um céu cor de laranja. Respirei fundo, os versos de On an Island atravessavam-me o pensamento misturando-se com aquilo que ouvia nesse momento e pensei em tudo o que me tinha acontecido.

Tinha morrido e voltado a nascer.

sábado, 11 de julho de 2009

AZUL

Fecho os meus olhos
Cheios de estrelas
Cheios de luz
AZUL

A água molha-me a pele
Encho os pulmões
Afundo-me no
AZUL
No meio dos destroços do vapor
Um polvo contempla-me
Vou flutuando no
AZUL

No fundo do mar mil cores
Milhões de tonalidades
Vermelho, verde e
AZUL
Nas cavernas daquele navio
Muitas dores passaram
Mas lá ao fundo é
AZUL

Vejo esponjas e gorgónias
Polvos, sargos e fanecas
Mas espanta-me o
AZUL

Na escuridão da profunda gruta
Seres estranhos passeiam
Também eles procuram
AZUL

Lá fora vejo a glória da luz
Uma profunda e intensa
Mas suave no tom
AZUL



O sol aquece-me a alma
Banha-me o corpo
Sob um céu
AZUL

O barco flutua placidamente
Espera-me sem pressa
Sobre o oceano
AZUL

domingo, 21 de junho de 2009

Que dia...


Lembro-me do azul
Um azul profundo, luminoso
Onde a vista se perdia
Achando-se nos corais

Nadei na mansidão da corrente
Livre das grilhetas da gravidade
Pairei sobre rochas, sobre areia
Na ternura da imponderabilidade




Lembro-me do crepúsculo
Da doçura da água
Que me acolhe no seu seio
Que me abraça suavemente

As medusas soltam os tentáculos
Como cabelos sacudidos no vento
Ondeiam ao sabor da corrente
Despenteados, belos, livres



Lembro-me da escuridão
Sem a luz do dia
Sem a luz da lanterna
Outra luz surge

Milhares de estrelas brilham
Como uma via láctea
No fundo do Oceano
O esplendor galáctico




Lembro-me de 2 olhos fitarem-me
Interrogavam quem anda aí
Quem ousa perturbar a Paz
Quem trouxe essa luz

Sinto-me intruso naquele mundo
Sinto-me um estranho na terra
Quero viver aqui
Embora em breve deva partir




Lembro-me daquele dia
Da imensa paz
Do sublime pôr-do-sol
Da serena noite

No nevoeiro da memória
Persiste aquele dia que passou
Como gravado numa rocha
Como desenhado no vento

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Proa do River

música: Sweet, Sweet Rain - Gene Loves Jezebel


Chove, Chove torrencialmente
O cheiro doce da terra molhada
O som forte e grave do trovão
Um relâmpago, uma luz rasgada

O mar estende-se à minha frente
Sinto o sabor salgado da maresia
O Doce e o salgado se misturam
O verde e o azul se completam






Desço lento ao fundo do mar
Percorro a longa galeria despida
Por entre ferros, tubos e manilhas
Surge de repente o brilho da vida

Em silencio contemplo o escuro
As sombrias entranhas da nave
Outrora sulcou majestosa as ondas
Hoje no fundo jaz inerte e grave




O caos é a origem do cosmos
A destruição é o berço da vida
Rodando eternamente
O universo é uma espiral infinita

À luz segue a sombra
À vida segue a morte
Inexorável o tempo passa
Mas repete-se sempre diferente





Sinto urgência por esperar
Mas porque espero? O que espero?
Talvez espero por esperar
Ou então apenas um desespero

Sinto o mar correr nas veias
Sinto o vento por baixo da pele
No meu coração batem as ondas
Nos meus olhos brilham estrelas



Recordo cada beijo que dei
Cada mulher que AMEI
Cada ternura dada e recebida
Cada lágrima de dor vertida

Sinto-me amarrado a mim mesmo
Preso num corpo que é meu
Sou estrangeiro em minha casa
Sou nativo entre estranhos

sábado, 30 de maio de 2009

De novo no River

música: Why does my heart feel so bad? - Moby

Envolto numa névoa azul
Preso numa cadeia de coral
Jaz imóvel, imperturbável
Olhando-o não parece real




No meio de ferros retorcidos
A vida prossegue, imparável
No meio do horror e da morte
A beleza mantém-se indelével




Mergulho nas suas cavernas
Passo pelas suas estruturas
Algumas apertadas e estreitas
Outras largas como ruas






Um grande sargo passeia
Belo, listado, brilhante
Nas suas escamas bate a luz
O seu brilho parece um diamante






De escamas vermelhas
passeiam-se pelos fundos
Aqui estão bem melhor
Longe de lugares imundos






Por aqui já muitos rostos olharam
Já foi uma janela para o mundo
Lá dentro está um escuro de breu
E de lá um fantasma olha o fundo