domingo, 15 de março de 2009

Feel...

música: Feel - Robin Williams

Sinto-me no paraíso! Estou no fundo do mar embalado pela corrente, deslumbrado com a explosão de cores à minha volta. Apesar da visibilidade não ser grande coisa, a fauna e a flora deslumbra com uma variedade de cores que nunca tinha visto.

Diria que a Primavera também chegou ao reino de Neptuno, um Bodião fluorescente cruza o meu caminho, nunca tinha visto nenhum assim com a cauda e diversas manchas de um azul eléctrico fluorescente.

A atmosfera que me rodeia parece irreal, parece um sonho.

Sigo-o pelas grutas submarinas até encontrar uma judia que mais parecia um arco-iris.

Será que morri e estou no paraíso? As bolhas de ar de saem do regulador dizem-me que estou bem vivo.

Para onde quer que olhe uma orgia de cores invade-me a vista e atesta-me a alma. Uma paz profunda preenche-me o corpo, só me apetece ficar ali a usufruir daquele espectáculo de luz e cor.

Um cardume de salemas empresta o seu brilho prateado, envolvendo-me num caleidoscópio de reflexos.

Pergunto o que se passa, as salemas dizem-me que chegou a Primavera e todos os seres subaquáticos comemoram.

- Lá em cima não têm também a Primavera? - perguntam-me.

Respondo que sim, que também é uma explosão de cores e cheiros, mas não esperava encontrar o mesmo quadro cá em baixo.

Um minúsculo caboz está poisado num fundo vermelho e rosa quase se confundindo com ele. Observa-me calmamente, olho-o durante alguns segundos e deixo-me contagiar pela sua serenidade.

Poucas vezes senti-me tão rodeado de beleza e cor, apenas quando mergulho sinto-me assim tão em paz. Uma pergunta percorre-me o espírito, para quê tanta disputa e tanta intriga?

Aqui o poder deixa de fazer sentido, para que serve acumular riqueza se não se poder usufruir desta paz, deste bem-estar?
Que prazer me dá ver o meu nome na Phorbes, e não ter tempo para apreciar a vida, para que me serve ganhar milhões que nunca poderei gastar. Para quê gastar uma vida a acumular riqueza e poder e não desfrutar da beleza do mundo?

Aquelas pequenas anémonas verdes parecem delicadas flores, levam uma vida de paz esperam tranquilamente que as presas passem ao alcance de seus tentáculos, não será mais feliz que um qualquer executivo que trabalhando de manhã à noite acumula uma riqueza que no fim da vida de nada lhe servirá?

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Finalmente...

musica: Break the Chain - Gene Loves Jezebel
A corrente era forte, muito forte. Nadei contra ela até que por fim, exausto, tive de me agarrar ao fundo. As anémonas eram violentamente agitadas pela força da água, algas passavam por mim a grande velocidade.

Uns metros à frente vejo que as rochas formam uma protecção da corrente, espero que esta amaine e lanço-me na sua direcção. Finalmente consigo um abrigo para descansar um pouco. Normalmente não nado contra a corrente, mas hoje era necessário, não havia nada a fazer tinha de ir naquela direcção.

Ali abrigado os pensamentos fluem, vou ordenando a minha mente enquanto tento recuperar o fôlego.

Um polvo observa-me atentamente interrogando-se que faria ali aquele ser desajeitado. Pensa que só mesmo um humano para ser assim tão pateta a nadar contra a corrente, ainda por cima carregado de adereços.

De facto nós os Homens somos os únicos animais que lutam contra a natureza, todos os outros adaptam-se e fluem com ela. Nós não achamos que podemos controlá-la, domesticá-la... Pura ilusão, a natureza é bem mais forte e se continuamos a agir desta forma ela acabará por se virar contra nós.
Com estes pensamentos saio tentando alcançar um novo abrigo, cheguei lá e observo que há minha volta existe uma profunda Paz, em contraste com a minha respiração ofegante, os diferentes peixes observam-me algo espantados pela minha persistência em vencer uma corrente que é mais forte que eu.

Tento acalmar a respiração e descansar ao máximo para tentar novo trajecto, vou deixando-me contagiar pela harmonia que reina neste mundo de imponderabilidade. Aqui não há pressas, stress, ansiedade. Paz! Uma profunda Paz invade-me.
Olho para o computador, este indica que já gastei metade do ar da garrafa, mas ainda não atingi o meu objectivo, como conseguirei voltar? Será que quero voltar? Não será melhor ficar aqui? Deixar-me levar por esta tranquilidade e não mais voltar à superfície?

A ideia é tentadora, de repente atingir o objectivo deixou de interessar, só a harmonia que me rodeia interessa, a minha respiração abranda rapidamente. A Paz invade-me, toma conta de mim. Já nada mais me interessa, vou ficar aqui, já não volto!

Um caboz aproxima-se e diz-me que talvez não seja muito inteligente aquilo que estou decidido a fazer. Respondo-lhe que sinto-me em Paz e é assim que quero ficar. O caboz sacode a cauda e levanta a barbatana -És um parvo! Para quê que vais abandonar tudo? Achas que aqui em baixo há Paz? Não! A Paz que sentes é aquela que trazes dentro de ti, só que enquanto estás à superfície não a sentes pois tens outros objectivos. Já esqueceste que ainda não há muito tempo debatias-te para vencer a corrente, achas que estavas em Paz nessa altura?

-Não. De facto não estava em Paz e és capaz e ter razão, ela deve estar mesmo dentro de mim.
Olho para o computador, já passaram 38 minutos de mergulho, tenho ar para apenas 5. Não vou conseguir voltar ao barco, tenho de subir e depois nadar quase 1 Km à superfície.

Subo até aos 5 metros e faço a paragem de segurança de 3 minutos. Deixo-me fluir com a natureza, estou em plena Paz e harmonia com tudo o que me rodeia, a minha respiração está calma, sinto perfeitamente tranquilo.

A corrente arrasta-me docemente, deixo-me levar, acabou o tempo do patamar de segurança, vou subir.

Surpresa! Ali na minha frente está o cabo da ancora do barco, agarro-o e subo por ele. Já há superfície deixo-me levar pela corrente até à popa e com calma subo para bordo.

Lição aprendida!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Fantasmas

música: Angels - Robbie Williams

Hoje sonhei com fantasmas, sonhei que estava no fundo do mar, e no meio da escuridão e da suspensão os tinha visto, turvos como se no meio de um nevoeiro se escondessem.

Havia uma neblina verde, um ambiente lúgubre, no entanto sereno, voltei a ver os fantasmas, passaram ali ao lado, seriam de marinheiros ou de piratas? seriam de exploradores ou curiosos?

Que interessa o que eram? Apenas são fantasmas, sombras de uma vida passada, relâmpagos de uma vida que há-de vir. Um pesadelo? Não! Do mar não vêm pesadelos. Um sonho? Talvez! Pois é no mar que nascem os sonhos.

Será apenas o reflexo de um farol? E se for um farol fantasma? Há navios fantasmas, porque não há-de haver também faróis?
Eram peixes, provavelmente, pois aqui é o seu reino, mas também é de Nereu, Poseidon, das ninfas, das sereias e dos tritões.

Este também é o seu reino, este é o meu reino, serei eu um fantasma? Estarei aprisionado num limbo do qual me liberto aqui neste mundo imponderável, onde a beleza impera e onde podemos sentir a PAZ, o AMOR e a SERENIDADE

Aqui ouço o canto dos anjos, aqui sou verdadeiramente feliz, liberto da dor da gravidade, posso voar, rodopiar, aqui livre das grilhetas do ódio e da inveja partilho a minha alegria com todos os seres que me rodeiam.

Descobri que os peixes são na realidade anjos, que em vez de asas têm barbatanas, que o AMOR é infinito e que a PAZ é eterna.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Eu me perdi

música: Lost? - Coldplay
As ondas desfazem-se na areia elaborando uma pintura surreal com a sua espuma branca e cantando uma melodia de amor em tons graves. O vento acaricia-as deixando atrás uma nuvem de água. Um pequeno barco aproxima-se traçando uma linha branca no azul profundo do mar, vem vazio, nem as gaivotas se importunam a visitá-lo. Aqui e ali uma gaivota passa a rasar as águas, 2 surfistas baloiçam nas ondas, apesar do frio intenso que se faz sentir sinto-me tentado a ir também para lá. A minha mente recua no tempo nostalgicamente.

São 10 horas do dia 3 de Janeiro de 2009 em Sesimbra. Dirijo-me para o barco. Subitamente começa a chover apesar de ter estado um dia de sol; cumprimento a chuva, é a antecipação da entrada nos domínios de Poseidon, um aperitivo. Entramos na água, está turva, muito turva, vê-se pouco mais de 5 metros. Descemos felizes apenas por ali estarmos, um cardume de sargos surge no meio da suspensão como se fossem fantasmas no nevoeiro de um cais assombrado.

Um bodião vem acompanhar-me e conduz-me até uma bela esponja amarela contando-me que já foram conhecidas pelo ouro do mar. Na penumbra admiro-a, admiro o silencio que me rodeia, a imobilidade, o ser e o não ser daquela criatura tão estranha e ao mesmo tempo tão familiar.

Sigo-o pelo fundo do mar e por entre algas e medusas acabo por vislumbrar uma magnífica gorgónia. Contemplo um a um os seus frágeis braços de uma bela filigrana.
Perco-me por entre aquelas hastes ondulantes na corrente, sinto-me integrado naquele mundo, naquela beleza, naquela serenidade.

Mais abaixo vejo um caranguejo que tenta desesperadamente esconder-se da luz que é projectada pela minha lanterna, fico ali uns momentos e tento convencê-lo que não estou ali para lhe fazer mal. Agradecido, deixa-se fotografar, a calma volta a invadir o fundo do mar, os bodiões, as judias, os sargos, passeiam à minha volta naquela atmosfera quase fantasmagórica.

Poisam-me um café ao lado, despertando-me desta viagem ao passado. O cheiro dele associa-se à maresia e deixa-me inebriado, junto-lhe um pau de canela, os cheiros acentuam-se, não resisto mais e bebo-o com prazer.

Volto a contemplar o mar, as ondas continuam a desfazer-se preguiçosamente na areia.
O pequeno barco já desapareceu, os 2 surfistas continuam ali embalados pelas vagas e eu sinto-me em paz, feliz por ali estar, por desfrutar aquele momento. Rezo uma oração de agradecimento a todos os deuses que a humanidade já honrou, à natureza, ao Universo, na forma de um poema de Sophia de Melo Breyner:

Eu me perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar



Não se percam no Lado Escuro da Lua!

domingo, 16 de novembro de 2008

O melhor mergulho do ano!

música: Sunset - Café del Mar
São 10:00 de um Sábado que faz jus ao famigerado Verão de S. Martinho, pois apesar do azul profundo do céu e do mar convidarem a um mergulho, a temperatura não era das melhores. Mas mesmo assim, ou talvez por isso, telefono para a Cipreia, marco um mergulho, preparo tudo e lá arranquei directo a Sesimbra, eram umas 10 da manhã.

Ao chegar, cumprimentos, apresentaçõe
s, preparação do equipamento e finalmente lá estamos a bordo prontos para sair.

O mergulho em si mesmo foi fabuloso. A visibilidade de por volta de 10 metros, a vida que encontramos, o sol, o estado do mar, numa palavra - TUDO estava quase perfeito.

Cardumes de Sargos, Salemas, Taínhas e Robalos vieram dar-nos as boas vindas assim que entramos dentro de água.

Sentia-me calmo como aquela estrela do mar que placidamente me observava. Por momentos parecia estar no Mar Vermelho, não fosse a temperatura da água, que não passava dos 15º e a visibilidade que sendo bastante boa para Portugal não tem nada a ver com o que podemos observar a sul do canal do Suez.

Vários Pargos passaram por nós e deixaram que nos aproximássemos de uma forma como nunca tinha visto. Perguntei se não tinham medo de nós, eles responderam que desde que foi criado o parque nacional de Sesimbra e proibida a pesca já não têm receio dos homens.

Tive de reconhecer que estava errado quando achei que criação desta reserva iria ser um fiasco. De facto estava ali bem patente a prova que o homem pode atingir o equilíbrio com a natureza. E que ela é pródiga em recompensar as boas práticas. A cada mergulho observo um incremento da fauna e flora em Sesimbra, provando que o Parque Natural é de facto uma mais valia. Era bom que outros Parques destes proliferassem pelo país, pelo mundo.

Era bom que parasse-mos as agressões ao meio ambiente e encontrasse-mos uma forma de viver em harmonia com ele.

Mas depois pensei, como será possível o Homem ter paz com a natureza se não têm com ele próprio?

É um sonho utópico pensar que um dia poderemos viver em equilíbrio com o planeta se não encontrarmos primeiro uma via para estarmos em paz com o nosso semelhante. Guerras, assassínios, processos de intenção, conjuras, difamações, discussões... Parecem estar indelevelmente marcados na natureza humana.

Ou então é apenas uma característica de alguns. Sim isso é o mais provável, nem todos os seres humanos são mesquinhos, existem pessoas que tentam atingir a felicidade só por si próprios, que a simples contemplação de um pôr-do-sol é mais do que o suficiente para se sentirem em paz, que oferecem mais do que pedem, que ajudam os outros de uma forma abnegada e altruísta.

Um polvo mais atrevido acabou por escapulir para debaixo do colete do meu buddy, demonstrando isso mesmo.

O buddy que me calhou desta vez foi, seguramente, um dos melhores que tive até hoje, não só os conhecimentos acumulados em 40 anos de mergulho, como a calma e os truques de uma longa vivência com o mar.

De facto nada substitui dezenas de anos de experiência visíveis em cada gesto, em cada observação, em cada conselho. Senti-me um iniciado e, no entanto, uma ainda mais profunda paz me invadiu, dei comigo a tomar atenção a pormenores que normalmente me escapam, sempre preocupado a ver se não me perco do buddy enquanto fotografo aquela anémona que me chamou a atenção.

Sabe muito bem mergulhar com quem tem tanta experiência e que vai lá para baixo com uma calma maior do que a nossa. Normalmente os mergulhos são a correr, pois a malta mais nova quer ver mais e mais, sempre com pressa, sempre com stress, muitos esquecem-se do buddy que parou para fotografar uma estrela do mar, poucos como o Octávio nos chamam para observarmos essa estrela do mar.

Tão menosprezada que é a experiência na nossa sociedade, instalou-se uma cultura em que apenas valorizamos os novos, em que tudo é efémero, em que as modas evoluem a um ritmo alucinante, uma sociedade que olha com desdém para os mais velhos, que os acha antiquados, desajustados.

A minha profissão é uma das principais responsáveis por isso, de facto 3 anos é uma eternidade em termos de desenvolvimento informático, rapidamente os mais velhos são ultrapassados pelos mais novos, a experiência pouco conta, pois tudo esta em constante mudança. Por isso muitas vezes sinto-me tentado a ir na maré da novidade, do que é velho não presta, para logo a seguir me arrepender. Devemos ouvir sempre a voz da experiência, dos mais velhos, daqueles que já viveram mais anos e que acumularam por isso uma bagagem superior à nossa.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A Magia do Photoshop

música: Beyond the Sea - Robbie Williams
Em Janeiro do ano passado desesperava por uma falha do flash me ter estragado as fotos da hélice do River.

Quase tudo tinha corrido mal naquele mergulho: frio, o mar extremamente "pesado", a camisola que ficou enrolada por baixo do fato, o elevado consumo de ar, mas o flash é que me arreliava mais. Pela primeira vez estive na frente das hélices do River e o estupor do flash recusava-se a disparar.
Quando, alguns meses depois e por descargo de consciência, passo as fotos completamente pretas pelo Photoshop...

Voilá! A hélice aparece, qual fantasma, como que surgida do negro absoluto. Claro que houve outras fotos em que nem após várias horas de afinações consegui retirar de lá o que quer que fosse. Mas esta assim que mandei fazer o equilíbrio de brancos automático, surgiu em todo o seu esplendor.
Também a judia laranja vivo readquiriu uma cor mais natural. Sem falar dos sargos que já se conseguem ver na foto abaixo, no post original não passavam de meros reflexos que não deixavam entender do que realmente se tratava.

Apesar de a qualidade não ser a melhor, os resultados foram francamente animadores. O que me levou a agradecer o facto de nunca apagar as fotos que faço por muito más que fiquem.

Mas a qualidade também não é a motivação quando fotografo.

Não me dá nenhum prazer fazer a foto perfeita e não mostrar o que me vai na alma, para mim a foto é um momento e não um enquadramento.

Podem pois imaginar a alegria por ter recuperado aqueles momentos que julgava estarem confinados apenas às minhas memórias.

Nunca deixem de lutar pelo que AMAM, nunca dêem por perdidos os vossos sentimentos, lutem sempre enquanto circular sangue pelas artérias é sempre possível conquistar aquilo que AMAMOS.

Eu nunca hei-de desistir!


Nunca desistam do Lado Escuro da Lua!