sábado, 18 de outubro de 2008

As rémoras

música: Money - Pink Floyd
Naquela manhã quente de Setembro o termómetro indicava 35º e foi com algum sacrifício que vesti o meu fato semi-seco. A viagem de barco até à Ponta da Passagem foi célere mas mesmo assim ansiava o momento de rolar de costas rumo ao azul mais do que me é habitual.

Por fim o tão esperado momento mágico em que abandonamos o peso da gravidade e entramos no reino de Nereu.
Em contraste total a água estava fria, não passando dos 17º, foi com um alívio duplicado que senti a temperatura do neoprene descer rapidamente, avistei um cardume de sargos passeando pelo topo das rochas mais altas, olhando para baixo vi uma medusa ondulando os seus tentáculos na corrente e dou comigo a pensar que não consigo encontrar no fundo do mar uma criatura mesquinha como as moscas ou certos seres humanos.

A medusa adivinhou os meus pensamentos e disse-me para não olhar para ela, pois chatas eram as rémoras.
O pepino do mar sarapintado de pontos brancos avançou que mesmo assim elas apenas se colam aos peixes maiores e fazem-se passar por importantes, alimentando-se dos restos que estes deixam.

Eu acabei por acrescentar que lá em cima existem pessoas parecidas mas ao contrário das rémoras que apenas são uma preguiçosas e mandrionas essas juntam a esses predicados a maldade.

-Estás a pensar em alguém especificamente? - Perguntou-me o pepino.

-Não! Quer dizer talvez, mas não quero trazer esses seres para aqui para debaixo de água.

Um bodião-reticulado aproximou-se e segredou-me ao ouvido que talvez fosse uma boa ideia trazê-los mas sem garrafas!

-Não! Além de tudo sou um ecologista e isso de trazer lixo da superfície cá para baixo deixa-me horrorizado. Depois era dar muita importância a qem não a merece. Era bem melhor dar-lhes uma mão e apoiá-los a progredirem como seres humanos, mostrando-lhes que o caminho para a felicidade está dentro de nós e no AMOR e não no ódio nem na inveja.

Um sargo aproveitou a deixa e entrou na conversa.

-Porquê que vocês são assim? Quer dizer alguns de vocês.

-Não sei. Acho que ainda não viram a beleza do mundo, olham para os outros e invejam a sua felicidade e fazem tudo para que a destruir de maneira a ficarem como eles.

-Mas tu como consegues ser feliz? A vida até nem tem sido particularmente simpática, no entanto aqui estás sempre com um sorriso, sempre feliz.

-Sabes bem que nem sempre é assim mas eu tento sempre procurar a felicidade, mesmo nos momentos de mais completo desespero, acabo sempre por encontrar um par de minutos para contemplar o Oceano e sentir-me feliz por estar ali a inspirar o salgado sabor da maresia.


Fiquem Bem no Lado Escuro da Lua!

domingo, 12 de outubro de 2008

O naufrágio II

música: Behind the Wheel - Depeche Mode
A 35 metros de profundidade vejo uma proa recortar-se em contra-luz no verde esmeralda do oceano. Sou assaltado por um turbilhão de emoções, se por um lado vibrava de alegria por contemplar tão poderosa visão, por outro uma profunda angústia oprimia-me enquanto contemplava as sombras do que já tinha sido um orgulhoso navio.

Mergulhar num naufrágio é o mais emocionante de todos os mergulhos, sentimos a grandeza de contemplar a história e ao mesmo tempo a pequenez da nossa condição humana perante a força da natureza.

A natureza foi ocupando o outrora poderoso navio, gorgónias, algas, crustáceos e peixes cobriam agora as chapas retorcidas daquele cargueiro. Uma explosão de cores e movimentos substituíra as correrias dos seres humanos, o silencio impusera-se ao som das máquinas poderosas que giravam hélices de quase 2 andares de altura.

Enquanto contemplo as belas gorgónias multicoloridas vou meditando sobre a forma como algo de tão poderoso aos nossos olhos humanos foi afundado em poucas horas e reduzido a um destroço pela fúria da natureza. Sinto-me frágil, tão frágil como aquelas gorgónias, interrogo-me sobre como é possível o ser humano pensar que controla o mundo. Percebo que a humanidade vive numa ilusão, quem controla o mundo é a natureza e nós ao não a respeitarmos acabaremos por sucumbir.

Observo os meus companheiros de mergulho rodearem a balaustrada como se tratassem de fantasmas, imagino a dor e o desespero que marcou os últimos momentos desse barco, vejo os espíritos dos que lá pereceram acercarem-se de mim interrogando-me sobre o que me levou a descer até ali. Presto-lhes uma sentida homenagem e conto-lhes os meus pensamentos.


Sinto que me compreendem, o meu parceiro aproxima-se de mim faz-me sinal se está tudo bem. Aponto para os espíritos, ele também os vê e repete o meu ritual. Os espíritos dizem-nos que outrora sentiam-se os donos do mundo, que era a nós humanidade que competia comandar o planeta e que o saque não só parecia algo de normal como até mesmo obrigatório.


Pedem para os seguirmos e conduzem-nos por corredores e salas por fim paramos na ponte de comando onde o comandante continua no seu posto agarrando a roda do leme.

A emoção leva-me a confessar que quando morrer quero vir para o fundo do mar pois esta é a minha casa e apenas aqui me sinto em paz.

Ele diz-me que antes disso tenho um longo trabalho a realizar, que tenho de transmitir aos outros tudo o que disse aos seus marinheiros.

Sinto uma amargura no seu tom de voz, ele responde-me que é por só ter tomado essa consciência tarde demais...


Não naufraguem no Lado Escuro da Lua!

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Portinho da Arrábida


Talvez não seja um exagero afirmar que este é um dos mais belos lugares do Mundo. Em poucos lugares a Serra, o Mar e a Praia estão em tão perfeita
harmonia. Em poucos lugares se sente uma paz tão profunda e inspiradora.

Fui visitar o Museu Oceanográfico na Fortaleza de Santa Maria, subi ao topo e contemplei a paisagem sublime que nos é oferecida. Toquei o sino com um pouco de inveja, deve ser algo de maravilhoso viver ali, assim sem qualquer preocupação.

A minha filhota aproveitou para se deitar em cima da muralha ficando a absorver todas as sensações maravilhosas que aquele sítio nos transmite.

-Isto é tão lindo...
-Pois é filha, é um pedaço do paraíso que caiu aqui na Terra.

Ficamos ali até à hora de fecho da fortaleza, sorvendo com sofreguidão cada imagem, cada som, cada cheiro, cada carícia do vento nos nossos rostos, cada sabor a sal trazido pela maresia.

Aquela paisagem fala connosco, diz-nos que a vida é bela, que o Amor é sublime, convida-nos a desfrutar cada momento, ensina-nos a apreciar cada inspiração. Diz-nos que é fácil ser-se feliz, basta abandonar-nos à contemplação, limpar os problemas da nossa mente e viver cada segundo como se fosse o último.

Observar as suaves ondulações do Mar, os barcos que baloiçam alegremente nos seus braços e deixar a paz invadir o nosso corpo.

Saímos dali e descemos em direcção à praia, as casas brancas enquadram-se perfeitamente na paisagem, transmitem a mesma aura de paz que a restante envolvência, diversas flores pintam o ambiente de vermelho e rosa, as tâmaras acrescentam um tom amarelo.

A paisagem continua a falar connosco, convida-nos a demorar mais um pouco, a saborear mais uns momentos a viver intensamente cada segundo que ali passamos. Vamos ficando, já há muito que fomos seduzidos por ela.
As nuvens também foram seduzidas por esta beleza e vieram beijar ternamente a Serra.

Encostei o carro e a minha filha fotografou esse momento de ternura. Voltou para dentro e suspirou:

- Pai isto é tudo tão belo. Porquê que o Mundo inteiro não é assim?

A paisagem veio em meu socorro e murmurou:

- Se não houvesse o feio, como seria possível apreciarmos o belo?

domingo, 31 de agosto de 2008

Pedra da Lagoa

Depois de 3 meses o Mar voltou a acolher-me nos seus braços!

Cada vez que volto a mergulhar após um tão grande período de ausência é como se
renascesse. Sou invadido por uma sensação quase orgástica que dura desde o momento em que começo a preparar a mala até assinar o logbook.

Ontem o mar estava calmo, parecia azeite, ao mergulhar sou recebido por um cardume de carapaus que brilhavam como se fossem pedaços de lua e me envolveram num festival de luz, como que a dar-me as boas vindas.

Continuei a descer e deparo com uma floresta de gorgónias de várias cores, com os seus leques abertos contra a corrente. Pequenos peixes passeavam entre elas, aqui e ali um ouriço do mar, uma anémona e um ou outro pepino do mar.

Só aqui me lembro que mergulhei com menos 4 Kg de lastro que o habitual, no entanto a descida foi fácil, muito fácil, as sereias e as musas conduziram-me para baixo sem qualquer esforço.

Parece que quanto mais Amamos o Mar mais ele nos Ama também.

Um cardume imenso de jovens fanecas tira-me dos meus pensamentos, sigo-as, deixo-me envolver por elas, sinto-me como se fosse uma delas e prossigo o mergulho.

Sinto-me recuar milhões de anos, as lembranças do nosso passado marinho devem ter ficado indelevelmente gravadas no meu ADN, pois recordo-me que nasci aqui, vivi aqui e morri aqui. Primeiro era uma simples célula, depois renasci como uma alga, voltei a morrer e a nascer diversas vezes.

Fui uma esponja, um peixe, um tubarão, depois aconteceu uma calamidade e renasci terráqueo, fui muitos animais, mas voltei ao mar, fui uma baleia, fui um golfinho, voltei a nascer em terra como um homem.

Foi então que tomei consciência, que pude Amar o Mar. Então voltei a ele, desta vez precisei de fato, de garrafas, de barbatanas artificias e colete, mas só agora me deslumbro, só agora me sinto fundir nesse Universo liquido, só agora compreendi a verdadeira essência, o verdadeiro AMOR. Só agora consigo admirar em toda a sua plenitude a beleza dos Oceanos.


Um enorme safio vem cumprimentar-me, olhamos-nos longamente nos olhos um do outro. Ele disse-me:

-Um dia serei um homem como tu.
E eu respondi:
-E eu já fui um safio como tu.

O computador apita, atingi o fim do RBT, tenho de voltar à superfície.

Largo a bóia de patamar e subo aos 5 metros, prendo o mosquetão do carreto da bóia de patamar num arnês do colete e consigo um equilíbrio perfeito e fico ali a pairar durante os 3 minutos da praxe, sem um movimento, apenas um ocasional bater de barbatana para manter a posição naquela doce imponderabilidade. Sinto-me feliz imensamente feliz. Subo para bordo e até agora ainda não parei de sorrir.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Está tudo bem

música: It's Alright - Café del Mar

Esteve um dia lindíssimo, as gaivotas piavam enquanto deslizavam suavemente na brisa do fim da tarde. Tinha estado na Cordoama, onde as ondas violentas convidavam a umas surfadas. O contraste após percorrer uma dúzia de quilómetros era evidente, aqui em Lagos o mar está liso como uma mesa de bilhar. O Barlavento do Algarve é assim, num lado uma calmaria do outro, um mar furioso. Vou inspirando o cheiro da maresia, fecho os olhos e viajo no tempo, até a um fundo submarino coberto de algas púrpura, onde pairo sem sentir qualquer peso, qualquer força externa.

Um pequeno peixe observa-me atentamente, interrogando-me sobre a minha presença. Tranquilamente respondo-lhe que estou onde sempre quis estar, que por um erro fortuito a natureza fez-me nascer humano, embora na realidade apenas me sinta bem debaixo de água.

Ficamos bastante tempo a olhar-nos um ao outro, invejei-o, ele pode levar toda a sua vida debaixo de água, respira-a, não precisa de coletes, nem de lastro, nem de fatos, nem de aparelhos respiratórios. Ele invejou-me, podia sair daquele mundo e entrar noutro, podia ver os pôr-do-sol, respirar na atmosfera, contemplar o voo dos pássaros, não tinha de me preocupar com os predadores e podia sempre voltar cá para baixo, para o reino do silêncio.

Continuei o meu passeio, maravilhando-me com a delicadeza de um caboz, ao mesmo tempo que pensava que se calhar o pequeno sargo tinha razão o caboz confirmou, disse-me que ali todos me invejavam, até a estrela-do-mar que podia bem passar umas horas fora de água, mas não tinha olhos para ver. Acabei por lhes dar razão, afinal a expressão popular “esperto que nem um sargo” devia ter algum fundamento.

Pela primeira vez senti-me bem por ser um humano, por poder contemplar ambos os mundos, por poder ter consciência da beleza do mundo e admirá-la, afinal a natureza tinha razão, a natureza tem sempre razão, nós os Homens é que temos a mania que a havemos de corrigir. Senti uma raiva profunda, sou da mesma espécie que está a delapidar o planeta, mas lembrei-me de Jacques Cousteau, de Al Gore e dos muitos milhares de anónimos que, como eu, apoiam ou apoiaram instituições como o Greenpeace ou a Quercus e que diariamente lutam por um planeta melhor, lembrei-me da cada vez mais emergente cultura ecológica, lembrei-me da minha filha.

Talvez haja uma esperança para a humanidade, talvez não seja tarde demais para salvar o planeta.

Um pequeno ruivo passeou pela minha frente, decidi ficar ali a observar como ele caminha pelo fundo com as suas patitas, levantando sedimentos em busca de alimento. A vida para ele pode ser simples e graciosa, mas afinal de contas ele não tem capacidade para se poder deleitar dela.

Enchi os pulmões com o ar salgado do fim da tarde, regressando da minha viagem no tempo e no espaço, contemplo o voo gracioso das gaivotas enquanto o vento sopra nos meus ouvidos. It’s Allright! A suave melodia do Café del Mar preenche o resto do quadro, a felicidade é algo de momentâneo, é um estado de espírito que se pode atingir mesmo no meio da adversidade, só precisamos de seguir o que nos disse o Dalai Lama “Apenas há 2 dias no ano em que nada se pode fazer, um chama-se ontem e o outro amanhã...”.

domingo, 20 de julho de 2008

Bailando Va

música: Bailando Va - La Caina

O vento acalmou completamente, apenas ficou uma ligeira brisa e aquele calor agradável dos fins de tarde estivais. O sol vai descendo em direcção ao horizonte e prolongando as sombras dos pinheiros, lá ao fundo sente-se a presença do mar, consigo adivinhar as ondas a navegar lá bem de longe e a rebentarem preguiçosamente na praia, aqui e ali um sopro mais enérgico do vento trás uma suave melodia e acaricia-me o rosto.

Vou bebendo uma cerveja e comendo uns tremoços à beira da piscina, hesitando entre a preguiça e a vontade de dar mais um mergulho. Queria mesmo era estar na praia, esta é uma hora mágica, a minha altura favorita para lá estar.

Detesto estar na praia quando esta está apinhada de gente, não gosto de lá estar na torreira do calor, a partir das 18:00 é quando verdadeiramente sabe bem estar na praia, ficar envolvido pela névoa da maresia, admirar o sol a pôr-se, ouvindo simplesmente o mar, ou então uma suave melodia com o ritmo de Bossa Nova e uma voz doce, "Bailando Va" dos La Caina - sou invadido por uma paz imensa, os meus pensamentos flutuam na brisa, todos os problemas e stresses afastam-se do meu horizonte, como invariavelmente me acontece nestes momentos os meus pensamentos são desviados para o fundo do mar...

Revejo-me a contemplar os fundos do mar, a beleza das anémonas ondeando os tentáculos verdes e purpura na corrente, a delicadeza cruel das estrelas do mar, as esponjas que dificilmente nos apercebemos que pertencem ao reino animal.

Estou a sonhar que estou bailando lá debaixo de água, vejo-me num salão de baile submarino dançando com sereias e golfinhos, ao meu lado estão moreias e safios, bodiões e judias, santolas e caranguejos, lulas e chocos. Um polvo é o maestro, as lapas, percebes e mexilhões compõem a orquestra.

Vou bailando, rodopiando, feliz e em liberdade absoluta, sinto-me inebriado, será a narcose? Não! A narcose não nos afecta nos sonhos, continuo a dançar mudando de par, passo de barbatana em barbatana e volto aos braços da minha sereia.

Olho bem fundo naqueles olhos belos de morrer e beijo-a ternamente, sinto a suavidade dos seus lábios nos meus, o calor doce da sua boca. Podia morrer ali com a cabeça dela encostada no meu peito e um sorriso feliz e pacifico nos seus lábios, abraçado ao seu corpo de sonho.

Deixo-me embalar pela música e danço abraçado a ela, de repente começa a soar o alarme do computador, tenho de retornar à superfície. Enquanto faço a paragem de descompressão olho para baixo, já não a vejo, nem ao salão de baile, apenas vejo a claridade que desaparece com a profundidade.

Mesmo assim não me sinto triste, a vida é composta por todos os segundos que passam, se em alguns deles fui verdadeiramente feliz então toda a vida terá valido a pena.

Os sonhos também fazem parte da vida, que seriamos nós se não sonhássemos? Que diferença teríamos das pedras ou da areia? Que interessa se é sonho ou realidade? Não será a realidade apenas um sonho?

Continuei bailando e...

Me sinto tan chiquito no Lado Escuro da Lua!

terça-feira, 1 de julho de 2008

Naufrágio

música: Salt Tank sargasso - Café del Mar

Um bodião curioso veio observar-me, olhou-me atentamente de cima a baixo. Fiquei a observá-lo também, admirando o seu corpo listado e a graciosidade dos seus movimentos.

Ele cumprimentou-me e fez-me sinal para o seguir. Perguntei-lhe onde me levava e ele foi respondendo para eu ter calma. Ali debaixo de água a pressa e o stress não tinham lugar. Aconselhou-me a gozar a viagem, a observar a beleza que o Oceano tem para oferecer a quem se dá ao prazer de contemplar.

Concordei em absoluto, fui olhando para a paisagem e vislumbrei a beleza frágil de uma gorgónia, ondeando os braços na corrente, sem pressas vai recolhendo aquilo que a corrente lhe trás, vai crescendo à medida que as gerações se sucedem, ganhando cores e complexidades cada vez mais belas.

Continuamos a descer, sinto-me invadido por uma paz serena, mas há algo mais. À medida que o computador vai indicando uma profundidade maior, vai aumentando uma sensação de melancolia, penso que se trata do aumento da pressão e da diminuição da temperatura e da luz. Mas não é só isso.


De facto já tinha mergulhado mais fundo e nunca me tinha sentido assim, de repente vejo uma forma. Pergunto o que é ao bodião, este responde-me que não sabe ao certo, mas que é algo que veio do meu mundo.

Aproximo-me e confirmo que aquelas formas só podem ter sido produzidas pela mão do homem, parece uma ancora. Sim, talvez seja uma ancora, mas lá atrás vejo superfícies planas, demasiado planas.

Chegamos ao River Gurara, diz-me o bodião.

É isso estou num naufrágio.

De repente vejo uma sombra na balustrada, sinto um arrepio e presto uma singela homenagem aos que ali pereceram, por todo o lado sente-se angustia, bravura, terror, valentia, desespero e resignação. Um peso enorme faz-se sentir sobre os meus ombros.

Os fantasmas ainda lá estão, presos entre os corais e o metal, ainda se ouvem os seus gritos, ainda se sente a sua presença, ainda se vêem as suas sombras.

Não há nada de mais profundo que mergulhar num naufrágio, mais do que em outra qualquer catástrofe aqui os sentimentos ficam mais incrustados como se fossem fantasmas, testemunhos indeléveis da angustia e bravura, da morte e salvação.